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Thursday, July 17, 2025

Balanchine: A Biography (Bernard Taper, 1974)

Uma excelente biografia, pelo que li na internet, a melhor até hoje de Balanchine. E no entanto já tem muitos anos, foi escrita quando Balanchine era vivo e trabalhava ainda como coreógrafo. Esta biografia não se apoia nos numerosos documentos que servem para provar uma existência, como acontece nas biografias mais ambiciosas e exigentes. Mas o livro de Bernard Taper é brilhante pois consegue dar-nos o ser humano e o coreógrafo Balanchine em toda a sua complexidade e ao longo do tempo. Balanchine formou-se numa das melhores escolas de ballet do seu tempo: os Ballet Imperiais de São Petersburgo. Nos anos 20, ainda muito jovem, trabalhou em Paris com os Ballets Russes de Serge Diaghilev e os Ballets Russes de Monte-Carlo, mas acabou por ir para os EUA onde criou a escola de ballet americano por excelência: o New York City Ballet. Com esta companhia, que fundou e dirigiu durante décadas, criou dezenas de obras que entraram no repertório de companhias de todo o mundo. Um grande artista. VC 08.2020 (5/5)

Eu, Maya Plisetskaya (1994)

 

Uma das melhores autobiografias que me foi dado a ler. Maya Plisetskaya foi prima ballerina assoluta do Ballet Bolshoi (Moscovo) e simplesmente uma das maiores bailarinas da história. Mas a sua vida e o seu trabalho, apesar de marcados pela excelência e longevidade (dançou durante mais de 50 anos), tiveram uma dimensão política extraordinária. Foi um dos grandes ícones da arte russa mais críticos do sistema soviético; apesar disso, nunca passou para o Ocidente. A partir dos anos 60 viajou muito e dançou para coreógrafos como Roland Petit, Maurice Béjart ou Alberto Alonso. Percorreu o mundo com O Lago dos Cisnes (que dançou mais de 800 vezes) e com obras feitas para ela (Carmen Suite, Anna Karenina, A Dama do cãozinho). Foi sempre fiel ao seu Bolshoi, a sua verdadeira casa. Por ele e pelo marido, o compositor Rodion Schedrin, nunca abandonou a Rússia. O seu pai foi morto e a mãe presa pelas autoridades soviéticas e só o talento extraordinário de Maya a poupou ao mesmo destino dos pais. As memórias de Plisetskaya são acima de tudo um incrível documento sobre a vida dos artistas sob o regime totalitário soviético. O original russo é de 1994, a tradução francesa é do ano seguinte: Moi, Maia Plisetskaya (Gallimard, 1995, tradução de Lily Denis). Li a tradução inglesa: I, Maya Plisetskaya (Yale UP, 2001). Vila do Conde 07.2020 (5/5)

Sunday, February 23, 2025

Un instant dans la vie d'autrui, mémoires (1979)

O livro de memórias do coreógrafo Maurice Béjart, de 1979, é excelente. Alia de forma ideal múltiplas reflexões pertinentes sobre a arte da dança, factos (mas poucas datas) cruciais da vida do coreógrafo (como os seus vários nascimentos), informações preciosas sobre o mundo da arte e da tradição da dança, fait-divers que envolvem tantos talentos do século XX, pormenores da criação das obras marcantes de Béjart (Boléro, Symphonie pour un homme seul). Este livro nunca poderia ter sido escrito por um ghost-writer, porque a escrita, o encadeamento dos acontecimentos e as digressões são tão pessoais e únicos que só podem nascer da pena de Béjart. Um livro que convida à consulta e à releitura. Vila do Conde 12.2020 (4,5/5)

Wednesday, December 18, 2024

L'histoire secrète des Ballets Russes (2002)

L'histoire secrète des Ballets Russes (2002)
Autor: Vladimir Fédorovski

Vladimir Fédorovski foi diplomata e embaixador e conhece muito bem as culturas russa e francesa. Escreveu muitos livros sobre grandes figuras russas, como esta Histoire secrète des Ballets Russes, centrada no grande Serge Diaghilev. Os Ballets Russes criaram a dança moderna e formaram não só o gosto como os bailarinos que depois do fim da companhia iriam elevar o nível da dança clássica e moderna em vários países. Quando os Ballets Russes surgiram em Paris no início do século 20, a dança clássica tinha atingido um nível de excelência (com as obras-primas de Petipa e Tchaikovsky) que não poderia ser aperfeiçoado. Teria de evoluir para outras formas e foi isso que Diaghilev fez com a aposta não só nos bailarinos e nos coreógrafos de formação russa, como também nos compositores (Stravinsky, mas também Debussy, Satie entre outros) e nos artistas plásticos (Bakst, Picasso...). Diaghilev rodeou-se de muitos génios, incluindo a mecenas Coco Chanel, e dominou a cena da dança nas três décadas em que existiu, fazendo sombra à própria Opéra de Paris, berço do ballet. Aliás,  foi Serge Lifar, um dos protegidos de Diaghilev, quem deu novo brilho à Opéra, como bailarino, coreógrafo e diretor da instituição durante mais de 20 anos. O livro de Fédorovski não implicou grande investigação mas sim o seu conhecimento em primeira mão de muitas histórias dos protagonistas dos Ballets Russes, por ter convivido com alguns deles. Vila do Conde 08.2020: 4/5

Tuesday, August 6, 2024

Trajectória da Dança em Portugal (1979)

 
Trajectória da Dança em Portugal
(José Sasportes, 1979)
Não é nada feliz a trajetória da Dança em Portugal, como dá a ver José Sasportes, no pequeno livro da coleção Biblioteca Breve (ICP, 1979). Sasportes publicou em 1970 uma história da dança em Portugal, e outra em 1991 (no contexto da Europália), provavelmente a obra  de referência no assunto até hoje. O melhor que aconteceu à dança em Portugal já não existe: o Ballet Gulbenkian. Foi a primeira vez que uma iniciativa da área da dança mostrava, com um excelente nível técnico e artístico, o que se fazia de melhor no mundo. Mesmo quando os Ballets Russes visitaram Portugal, Serge Diaghilev ficou por Espanha, e nenhum dos grandes ballets da companhia foi apresentado ao público português... O Verde Gaio não me inspirou interesse, apesar de ter sido um projeto de António Ferro, que estava sobretudo interessado na tradição e nada queria com a modernidade. Mas no século 19 o São Carlos cumprira bem a sua função de trazer os grandes nomes do ballet europeu, sobretudo bailarinas e coreógrafos. Disfarçou bem o isolamento cultural português. O melhor, depois da Gulbenkian e da Companhia Nacional de Bailado, estava para vir com a nova geração de coreógrafos que impôs uma dança autoral que atravessou mesmo as fronteiras. Mas este livro não chegou aos anos 80, por isso nada consta dos novos e novíssimos que entretanto surgiram. VC 08.2020 BIBLIOTECA (3/5)

Thursday, August 1, 2024

The Royal Ballet: 75 Years Main (2006)

Ensaio de Zoë Anderson 
Um livro que pôs em ordem as minhas ideias sobre o Royal Ballet, uma companhia que conheço bem. No início do século XX o ballet atingia o seu apogeu com o génio russo, nas companhias imperiais de Bolshoi e Mariinsky, assim como na companhia internacional dos Ballets Russes. Essa vaga irresistível vinda da Rússia inspirou muitos profissionais do Ocidente, como  a irlandesa Ninette de Valois, que trabalhou na companhia de Diaghilev e teve a ambição de criar a primeira companhia britânica de ballet, chamada Vic-Wells nos anos 20 e 30, e depois Royal Ballet nos anos 40. Essa bailarina e coreógrafa viveu até aos 100 anos e assistiu à consagração do seu trabalho, que foi aliás muito rápida. O que é hoje o Royal Ballet nasceu em 1931, quando a companhia de Valois teve direito a apresentar um espetáculo inteiramente de dança, quando antes apresentava-se nas óperas ou como parte de um serão com outras artes dos espetáculo. Durante a guerra a companhia ficou conhecida e admirada em todo o país, devido às suas corajosas turnés durante o conflito militar. Nos anos 50 era já considerada uma das melhoras companhias de ballet do mundo e as suas turnés anuais nos EUA foram a consagração internacional máxima e uma oportunidade de sustentar financeiramente o desenvovimento do Royal Ballet. Dois coreógrafos da casa marcaram o Royal Ballet e ainda hoje alguns dos ballets por eles criaram mantêm-se ativos no repertório da companhia londrina. Foram eles Frederick Ashton e Kenneth MacMillan e ambos assinaram longos ballets narrativos à semelhança do que se fazia desde o século XIX. Também da casa era Margot Fonteyn, uma das poucas primas ballerinas assolutas da história, que reinou no ballet inglês desde os anos 30 aos anos 60. Aos 40 anos a sua carreira renasceu e atingiu o maior brilho ao formar com Rudolf Nureyev o par mais mítico do ballet, os únicos bailarinos com estatuto das estrelas pop. O livro de Zoë Anderson apenas peca por se tornar por vezes maçudo ao descrever cada temporada do Royal Ballet com algum pormenor. De resto foi uma leitura empolgante. Vila do Conde 08.2020 (4,5/5)